Cultura

18 de abril de 2015
O sentido do sem sentido na obra de Gonçalo M. Tavares

por Maria Clara R. M. do Prado

 

A surpresa foi grande. Talvez pela ignorância sobre o jeito do autor, não como escritor, porque esse é mais fácil de saber, indicam os livros, mas daquela pessoa, ali à frente, a falar de coisas que fazem sentido, mas que se colocam sem a pretensão de fazerem sentido.

Gonçalo M. Tavares, escritor português nascido em Luanda, supreende pela simplicidade com que enxerga o mundo na essência. Fala daquilo que se poderia tomar como óbvio, mas que somente a muito poucos cabe captar.

“Não há distâncias, não há diferença de gêneros, se eu carrego na minha mochila um livro de Eurípedes e um livro do Joyce, juntos, não há distância entre eles”, disse, provocando a pequena audiência que o ouvia na Livraria Cultura, no Iguatemi, no sábado passado. A idéia de não há diferença de tempo entre dois livros estão lado a lado, sendo carregados juntos pela mesma pessoa, pelo mesmo leitor, não é absurda, mas está longe de ser trivial.

Gonçalo, em São Paulo. Foto de Mariza Baur

Autor de 34 obras, entre romances, contos, poesia, ensaios, Gonçalo repudia a forma e enaltece a palavra. Os livros são animais diferentes que se definem ao serem escritos. “A forma é inibidora”, comenta. “O material é a palavra, escreve-se textos, pouco importa a forma”. Afinal, tudo começa no alfabeto, nas letras que dão vida aos textos, sejam eles o que forem.

E a pontuação? Ela é a respiração que dá ritmo à velocidade da narrativa. Permite que o leitor faça uma pausa e levante os olhos do texto para pensar, refletindo sobre o que acabou de ler. Este é momento em que, para Gonçalo, o livro realmente é escrito.

E pensar, a partir dos livros de Gonçalo, é lidar com situações extremas, cada uma com a sua história, marcadas pela inquietude existencial.

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13 de abril de 2015
Eduardo Galeano, visão lúcida da América Latina

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23 de abril de 2013
E o Brasil, será que já deu certo?

por Maria Clara R. M. do Prado

Da escravidão à lei de amparo trabalhista às domésticas levou mais de um século, exatamente 125 anos. De uma maioria de miseráveis do início do século XX a uma classe média expressiva e em expansão (ver post na janela Mundo, deste blog) levou mais de cem anos.

Apesar do processo democrático, o sistema partidário brasileiro ainda não conseguiu atingir a maturidade política e lá se vão 124 anos desde que a República foi proclamada! Sob essas óticas, o Brasil vai dando certo, aos trancos e barrancos, a passo de cágado e sob os auspícios de muita paciência.

De uma educação gratuita de qualidade para um ensino público deficiente levou 50 anos. De uma rede hospitalar pública de alto nível para hospitais deteriorados levou 40 anos. De uma proteção eficiente à segurança do cidadão à rotina de roubos e matanças quase que diários levou 20 anos. Sob essas óticas, o Brasil está longe de ter dado certo.

Parece esquisito, mas quando se coloca os fatos na balança têm-se a impressão de que os avanços sociais e as melhorias econômicas e políticas demoram anos e anos, muitas gerações, para acontecer neste país. Já o ruim, aquilo que caminha para o pior, leva menos tempo para degringolar.

O tema é abrangente. Suscita meríades de opiniões, positivas e negativas, bem em linha com os paradoxos do país. Está nos primeiros lugares em tamanho de PIB, mas mantem muitas cidades ainda sujeitas aos detritos do esgoto a céu aberto. Tem substanciais reservas de petróleo, mas precisa importar gasolina para atender ao mercado interno.

O ex-Ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, não se intimidou diante das disparidades. Otimista, como é do seu feitio, lançou-se ao projeto de um documentário que estréia nas salas de cinema no próximo dia 29, segunda-feira, com produção executiva e direção de Louise Sottomaior.

“O Brasil deu certo. E agora?”, é o título do filme que foi buscar a opinião de outros ex-ministros, de ex-presidentes de Banco Central e de ex-Presidentes da República, como Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, sobre este país que já foi colônia e império, passou longos períodos sob truculentas ditaduras e conviveu por bom tempo com as mais altas taxas de inflação de que se tem notícia na segunda metade do século XX.

Veja, abaixo, o trailer do documentário:

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26 de fevereiro de 2013
Fora do figurino

Maria Clara R. M. do Prado

A Casa Jabuticaba de Cinema e Teatro prepara-se para apresentar ao público a sua mais recente produção, o documentário “Fora do Figurino – as medidas do jeitinho brasileiro”.  Sob a direção de Paulo Pélico, o filme trata dos problemas que os brasileiros enfrentam com roupas, calçados e outros produtos pela inexistência no país de parâmetros adequados ao biotipo nacional.

Chama-se a isso de antropometria, ou seja, um padrão de medidas compatível com as características físicas da população, considerando altura e peso médios para homens e mulheres, além de largura dos ombros, das ancas, coxas, enfim… todas as partes do corpo. Quem nunca comprou uma blusa com a medida correta nos seios, mas desproporcionalmente fora de alinhamento nos ombros? E aquele par de sapato que fica apertado na medida 35, mas largo no tamanho 36?

Os exemplos são inúmeros e nenhum brasileiro escapa. O motivo é fácil de entender: é que nossas roupas e calçados obedecem a parâmetros de outros biotipos, como o da população americana. Os moldes são importados e começam aí as incompatibilidades, que valem também para móveis – altura e largura das cadeiras, é um caso – e outros produtos, como o assento dos carros.

O documentário de Paulo Pélico vem justamente colocar foco no problema que tem passado batido nas discussões, seja no setor industrial, que deveria ser o mais interessado no assunto, como no varejo, sem falar das autoridades governamentais, que não conseguem realizar um levantamento antropométrico do brasileiro.

O filme estréia no dia 22 de março, no circuito Itaú de Cinema. Confira o trailer: 

http://vimeo.com/56090848

 

25 de fevereiro de 2013
A evolução de Sérgio Sister

Maria Clara R. M. do Prado

A exposição de obras do artista plástico Sérgio Sister, aberta na Pinacoteca de São Paulo, representa mais um importante passo para consolidar uma firme carreira que se mantém há 30 anos em evolução. Firme porque Sérgio fez das artes plásticas a sua opção maior de vida, deixando em segundo plano outras atividades que cruzaram o seu caminho.

Formado em pintura pela FAAP em meados dos anos 60, dedicou-se em seguida às ciências sociais e às ciências políticas, tendo  se graduado e pós-graduado, respectivamente, pela USP, nos anos negros da ditadura que o levou à prisão entre 1970 e 1971. Jornalista e ilustrador, Sérgio passou os últimos oito anos concentrado nas tintas e nos pincéis, em seu atelier na Barra Funda, aprimorando sua preferência pelo abstrato e pelo monocromatismo.

Os anos tornaram a obra de Sister mais simples e mais sofisticada e é justamente aqui, neste paradoxo, que o artista impõe a sua identidade. A série “As Caixas” – algumas delas, reproduzidas abaixo – é exemplo da transformação do material simples em novos e complexos elementos, de dimensão tridimensional, onde espaço, cor, luz e sombra instigam a percepção do expectador. A exposição de Sister, com 30 obras, criadas entre 1990 e 2012, permanecerá na Pinacoteca até o dia 5 de maio. Vale conferir!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7 de fevereiro de 2013
Falstaff nos 200 anos de Verdi

Maria Clara R. M. do Prado

Giuseppe Verdi, habitué do La Scala de Milão desde os primórdios de sua carreira, está mais uma vez de volta ao palco daquele grande teatro com Falstaff, uma ópera cômica, em três atos, cujo libreto – de Arrigo Boito – tomou por base a peça “As alegres mulheres de Windsor” e algumas passagens de “Henrique IV”, ambas de Shakespeare.

Este Falstaff, tantas vezes encenado e cantado mundo afora, surge rodeado de algumas relevantes referências: marca os 200 anos de nascimento de Verdi e, muito provavelmente não por coincidência, é apresentado exatos 120 anos depois da estréia daquela que seria a última ópera de Verdi, em 09 de fevereiro de 1893.

Mas o que talvez seja mais marcante é a produção moderna deste Falstaff, de autoria do canadense Robert Carsen, com cenários de Paul Steinberg e condução do maestro Daniel Harding.

Quem não assistiu no Royal Opera House, em Londres, em maio do ano passado, pode correr para ver o espetáculo em Milão até o próximo dia 12, ou, ainda, esperar até dezembro, quando se espera a montagem da mesma produção de Carsen no Metropolitan de Nova York (a conferir).

Um Falstaff bonachão, guloso e metido a conquistador, representado pelo barítono Ambrosio Maestri, ajuda a compor um ambiente carregado de intriga e de conquistas amorosas mal sucedidas, tudo com muito humor e muito colorido.

No libreto original, a história se passa na época do reinado de Henrique IV (1399 – 1413), na Inglaterra, mas a produção de Carsen trouxe a trama para a década de 50 do século XX. Veja no trailer do La Scala de Milão:

 

 

Uma montagem bem diferente daquela que marcou a estréia, e que por muito tempo viveu no imaginário dos aficcionados, com o figurino de Falstaff alinhado com as vestimentas típicas do século XV. [ leia mais ]

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4 de fevereiro de 2013
Ficcionistas da ficção

Maria Clara R. M. do Prado

“Escrever é um ato de fracasso. A procura ineficaz da palavra inexata, da palavra que falta, ou da palavra que escapa. Escrever é afundar-se em um presente angustioso e denso feito da ausência da linguagem, de seu silêncio, de sua falência. Não há porvir no instante em que se escreve; este instante não prevê qualquer futuro, não o percebe em sua iminência”.

As palavras sem escape do escritor paulistano Julian Fúks, autor do livro “A procura do romance” tornam pesada a tarefa da escrita. Mais do que isso, denotam ceticismo na árdua busca da palavra enquanto um vazio quase que premeditado se abre diante do escritor. Para outros, escrever tem um sentido de sentinela, de estar atento à realidade do aqui e agora. É o caso de Luiz Ruffato, autor de “Domingos sem deus”.

“Definido o tema, definida a forma, resta-me apenas uma questão: para que escrever? Para mim, escrever é compromisso. Compromisso com minha época, com a minha língua, com meu país. Não tenho como renunciar à fatalidade de viver nos começos do século 21, de escrever em português e de viver em um país chamado Brasil. Esses fatos, junto com a minha origem social, conformam toda uma visão de mundo à qual, mesmo que quisesse, não poderia renunciar”, conta Luiz Ruffato.

Aqueles e outros escritos sobre como se escreve, como nasce um livro, que elementos se juntam para desencadear uma história, um verso, uma linha que seja, foram compilados em Ficcionais, uma coletânea de relatos de 32 escritores que haviam expressado suas experiências nas páginas do suplemento Pernambuco, uma publicação mensal do governo penambucano, dedicada à arte da escrita, editada por Schneider Carpeggiani, um jovem, como a maioria dos autores convidados.

O suplemento Pernambuco, aliás, é uma revista que merece ser acompanhada. A edição de fevereiro traz um especial sobre Dom Quixote. Pode ser acessada através de http://www.suplementopernambuco.com.br

Voltando aos Ficcionais, é interessante ler todos os relatos e descobrir os impulsos, em suas diversas individualidades, que levam ao ato da escrita. Sacrifício ou obrigação. Um vício, acreditam uns. Uma dádiva, creem outros. [ leia mais ]

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1 de fevereiro de 2013
Você sabe o que é ser brasileiro?

Maria Clara R. M. do Prado

A pergunta do título deste artigo pode suscitar uma resposta curta, nos extremos do sim e do não, mas será uma resposta simplória. Pois é na complexidade dos meios termos que se encontrará uma definição, tão variável quanto variáveis são a individualidade de cada brasileiro.

No geral, o conjunto de brasileiros forma um paradigma, uma noção de identidade nacional, definida por conceitos mais ou menos enraizados no imaginário: afável, pacífico, boa índole, trabalhador, tolerante, perseverante, entre outros. São características únicas, reúnem virtudes de causar inveja aos empresários argentinos!

Mas há os que fazem uma leitura menos virtuosa daquela lista de bondades e acham que, em verdade, os brasileiros são displicentes, acomodados, indolentes, preguiçosos, imediatistas e alienados, entre outras menos castas. Acreditam estes que os brasileiros mantêm os mesmos sintomas típicos de um povo colonizado, que ainda não se emancipou e, portanto, não amadureceu. Não saberiam dizer exatamente quem são.

Afinal, os brasileiros sentem ou não orgulho de serem brasileiros? Até onde vai o sentimento de “brasilidade”? Até que ponto os brasileiros estão ligados às suas raízes? Têm consciência histórica e percepção de sua importância no mundo?

Na busca de respostas, o jornalista Adalberto Piotto, ex-âncora da CBN, dedicou sua primeira experiência em cinema a colher depoimentos para o documentário “Orgulho de ser brasileiro” (veja trailer abaixo).

http://www.youtube.com/watch?v=YsFlpuXDDzs

No filme, previsto para ser lançado em maio, tudo gira em torno da pergunta sobre sentir orgulho de ser brasileiro. Vêm à tona os aspectos positivos, os negativos, as dúvidas e indefinições, assim como algumas certezas. [ leia mais ]

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17 de janeiro de 2013
Goethe e a economia

Maria Clara R. M. do Prado

Considerado grande escritor e pensador alemão, ao lado de Friedrich von Schiller, seu amigo pessoal e interlocutor intelectual, Johann Wolfgang von Goethe tornou-se mundialmente famoso e influente pela sua obra literária.

“Os sofrimentos do Jovem Werther”, publicado em 1774, quando tinha apenas 25 anos, foi um sucesso quase que imediato e espalhou pela Europa o nome de Goethe. Outros relevantes romances e poemas surgiram depois, como “Os anos de aprendizado de Wihelm Meister” e “Afinidades eletivas”.

Sua mais destacada obra é “Fausto”. Escrita em forma de poema, com estrutura de peça de teatro, divide-se em duas partes, tendo a primeira sido lançada em 1808 e a segunda, anos mais tarde, em 1832, depois da  morte de Goethe, aos 82 anos, ocorrida naquele mesmo ano, na cidade de Weimar.

 

Naquele poema trágico, Goethe narra o embate entre a ambição de Fausto e o preço que teve de pagar para alcançar as conquistas desejadas, entregando a própria vida a Mefistófeles.

É um clássico! Mas Goethe foi também advogado, geólogo, botânico, entendido em mineralogia, além de ter se dedicado ao estudo das cores. Chegou a escrever um Tratado das Cores. Essas várias facetas da sua vida são fartamente conhecidas, pelo menos por quem se interessa pela sua obra.

 

As façanhas de Goethe foram, no entanto, ainda mais longe, perpassando não apenas um reles interesse, mas uma atuação efetiva no mundo da economia e das finanças. Alexandro Merli, jornalista do Il Sole 24Ore, escreveu em dezembro um excelente artigo sobre a grande importância dedicada pelo escritor alemão aos temas econômicos, tendo, inclusive, ocupado o cargo de Ministro das Finanças do Grão-Duque Carlos Augusto da Saxônia-Weimar-Eisenach.

Goethe teria idealizado o Goethische Finanzreform, um programa de austeridade e de conversão da dívida, desenhado em 1782.

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9 de janeiro de 2013
Fantoches desiludidos

Maria Clara R. M. do Prado

 

” Tesis sobre un homicidio”, prestes a entrar no circuito em Buenos Aires , é o nome do novo filme em que Ricardo Darín, o carismático ator argentino, mais uma vez interpreta um personagem que investiga por conta própria o assassinato de uma jovem. Darín faz o papel de um professor de Direito Penal, com fama de Don Juan e alguma aura de mistério por um passado nebuloso e uma vida solitária, obcecado pela idéia de que um de seus alunos foi o responsável pelo crime. O filme tem a direção de  Hernán Goldfrid e toma por base o livro de Diego Paszkowski.

Veja o trailer:

 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=1Rn552MEgzI

 

Não foi o filme, no entanto, que colocou Darín em evidência na mídia mundial, nestes primeiros dias do ano, e sim a polêmica declaração que deu à edição de janeiro da revista argentina Brando, na qual sugere que Cristina Kirchner dê explicações sobre o aumento do seu patrimônio. As mídias sociais, e a imprensa escrita, falada e televisionada puseram em destaque o ping-pong de notas, contestações, desmentidos, reafirmações, toda a repercussão suscitada pelo episódio. A própria Presidente da Argentina botou a boca no mundo para que não houvesse dúvida sobre a origem lícita dos seus bens.

Vale notar e conferir que a menção de Ricardo Darín à situação patrimonial de Cristina ocupa apenas um pequeno trecho de uma entrevista eivada de lucidez e extremamente oportuna na fase atual porque passa a Argentina. Ele fala de um país dividido, tomado pela intolerância contra o pensamento distinto daquele imposto pelo governo, que faz as vezes do papá a quem as crianças devem obediência. Um país que perdeu a ilusão.

Abaixo, a íntegra no original da entrevista dada por Ricardo Darín ao jornalista Pablo Perantuono, publicada pela revista Brando em janeiro:

 

Ricardo Darín: “Somos un país niño”

Por Pablo Perantuono

Fotos: Vera Rosemberg y Mariana Eliano

Producción: Pía Rey

 

Eran agitados esos días de diciembre del encuentro con Ricardo Darín. El 7D, como una suerte de Y2K -¿se acuerdan del colapso del mundo por el cambio de milenio?-, estaba a la vuelta de la esquina. Nadie sabía demasiado qué consecuencias traería para el hombre común ese día, esa ley, ese cambio, pero la presencia omnímoda de esa fecha les daba a aquellas horas frenéticas un hálito de inminencia inquietante. En ese panorama, posterior al cacerolazo del 28N, Darín se paraba como quien quiere observar y opinar sobre dos ejércitos gritones que van a estrellarse de frente.

Y no era muy optimista.

Darín: Están pasando cosas rarísimas. No se nos permite pensar fuera de lo establecido. Te dicen lo que tenés que pensar y en qué dirección, y si no estás de acuerdo, sos un hijo de puta.  [ leia mais ]

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